Que lindo botão de rosa Aquela roseira tem De baixo não se lhe chega Acima não vai ninguém
No muro de uma vivenda Está uma jovem sentada Prazenteira e descuidada Comendo a sua merenda Usava saias de renda A rapariga formosa Mas era tão graciosa E por baixo o namorado Dizia entusiasmado: Que lindo botão de rosa!
A jovem não reparava Na testemunha indiscreta Olhando o prado quieta Com gosto a broa trincava Mas o rapaz que olhava E analisava também Os encantos do seu bem E murmurava baixinho: Olha que tanto espinho Aquela roseira tem!
Por fim a mocinha linda O rapaz intruso viu Mas disfarçou e fingiu Não o ter topado ainda A merenda estava linda Mas ela não se conchega Entre a posição de pega Ele diz todo airoso: Aquele botão formoso De baixo não se lhe chega!
Ela ouviu isto e com ronha Sorrindo pouco se ensaia Ainda mais ergueu a saia Fingindo não ter vergonha Numa enrascação medonha O rapaz cora, porém Ela o riso não sustém E olhou para baixo trocista: Goza meu amor com a vista Mas acima não vai ninguém!
António José Belo
Uma figura popular de Montalvão
Foi um homem multifacetado, o ti António José Belo. Natural de Montalvão, morreu em Nisa, com 90 anos, no dia 25 de Junho de 2002. António José Belo, foi um homem de intervenção, dedicado a uma causa, a da cultura popular, em favor da sua terra, do seu "tchon", que ele cantou e divulgou de modo admirável, num tempo em que os apoios, aos mais diversos níveis, eram irrisórios, e em que a força do querer, a "carolice" e o amor ao chão pátrio, removiam montanhas, transformando os sonhos em realidade. António José Belo, foi, inquestionavelmente, um homem de sonhos e de horizontes vastos, que não se confinavam ao seu "avião de carreira" (desenho com o qual identificou as formas de Montalvão e que fez a capa de “ O Meu Livro”). Viajava, vezes sem conta, em viagens quase permanentes, através da poesia (as populares quadras e décimas), das figuras que esculpia num pedaço de madeira, a que dava formas bizarras ou de que aproveitava os contornos, mantendo a simbologia bruta e original, extraída da terra. Artesão, músico, apresentador de espectáculos, construtor de cenários e de peças de teatro, animador cultural, etnógrafo, nada do que se relacionasse com o seu "Montalvão querido" lhe passava à margem.
Há cinco anos, morreu o homem, o artista popular. Morreu, também, um pouco da história de uma terra do interior, no extremo norte do Alentejo, que já foi grande noutros tempos e que hoje definha, lentamente, por falta de braços e de sorrisos juvenis.
Para que outros possam seguir o exemplo, fica o registo de mais umas décimas, a lembrar uma figura popular de Montalvão e uma memória que o tempo não apaga.
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